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Como está a saúde mental do brasileiro durante a pandemia


(Imagem: Reprodução)


Fonte: Exame


Andrew Solomon escreveu recentemente em uma coluna no The New York Times que quando todo mundo está passando por momentos de angústia e ansiedade, as doenças mentais reais podem desaparecer.


O professor da Universidade de Columbia e autor de best sellers como “O Demônio do Meio Dia”, sobre depressão, dá um alerta para que não se perca de vista a crise secundária que se desenrola de forma paralela à pandemia do novo coronavírus.


Uma pesquisa feita pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) entre os dias 6 e 9 de maio mostra que quase metade dos profissionais da área tiveram um aumento nos atendimentos após o início da pandemia. A variação foi de até 25% para cerca de um terço dos entrevistados.


O levantamento, com médicos de 23 estados e do Distrito Federal, aponta ainda que quase 70% desse grupo dos que tiveram aumento das consultas atenderam pacientes que já haviam recebido alta, mas que voltaram a ter sintomas de ansiedade, depressão, transtorno de pânico ou alterações significativas no sono.


Sendo assim, quase 90% do total de médicos entrevistados, notaram o agravamento de quadros psiquiátricos em seus pacientes.


Já entre os médicos do grupo que não perceberam aumento nos atendimentos durante a crise, a pesquisa aponta um movimento contrário, de redução na procura. Um dos principais motivos listados para o movimento, está a interrupção do tratamento por parte do paciente devido ao medo de contaminação. Antônio Geraldo da Silva, presidente da ABP, diz:


“Situações anteriores de epidemias já nos levaram a observar que há um aumento durante ou depois nas doenças mentais, justamente por serem períodos longos de incerteza, visto que o período da curva da doença pode ir até 14 semanas”.
“É um período longo de estresse que pode ser gatilho para uma doença que estava adormecida”.

O Ministério da Saúde chegou a realizar um levantamento para avaliar a saúde mental da população durante a pandemia. O questionário ficou disponível para que as pessoas participassem até o dia 15 de maio. No entanto, não pretende divulgar o resultado da pesquisa.


O tema é tratado como prioridade pela OMS (Organização Mundial da Saúde) que na última quinta-feira,14, alertou que a pandemia da COVID-19 já estaria causando um “sério impacto na saúde mental das pessoas”. A OMS também pede para que os governos aumentem urgentemente o investimento em atendimento na área.


Segundo a Organização Mundial da Saúde, a depressão no Brasil atinge 5,8% da população. A taxa está acima da média global, de 4,4%. Há 11 milhões de pessoas diagnosticadas com a doença no país. No mundo, são mais de 300 milhões, mas apenas metade está em tratamento.


Raízes


De acordo com Silva, os casos novos de pessoas diagnosticadas com doenças mentais podem estar relacionados com vários fatores.


As doenças mentais têm um componente hereditário, e podem ou não se manifestar em uma pessoa que tem casos na família. Logo, é mais comum que apareçam após eventos de estresse – como a pandemia.


Após recessão global de 2008, por exemplo, vários estudos relacionaram a crise financeira a um aumento nos suicídios nos Estados Unidos e na Europa. Um deles calculou que, para cada ponto percentual a mais na taxa de desemprego americana, havia um aumento de cerca de 1,6% na taxa de suicídio, explica Silva. O segundo elemento que ele destaca é a quebra da própria rotina:


“A situação atual dessa pandemia mexe muito com estrutura social, familiar, financeira, do país e das pessoas. Hoje, isso tudo está muito mais volátil, o que faz com que as perdas estejam mais presentes”.
“O ritmo circadiano (ritmo de cerca de um dia) é importante para a saúde mental. Manter rituais é uma forma de se preservar. Durante a quarentena, muitas pessoas podem ter adquirido costumes prejudiciais, como acordar tarde, passar a madrugada vendo séries com frequência, por exemplo, param de se exercitar etc”.

De acordo com o especialista, falta hoje no país também uma base de dados adequada sobre o tema. Isso ocorre principalmente pela falta de informação, que aumenta o estigma em torno do assunto.


O tabu é mais frequente entre jovens adultos, como mostra a pesquisa do Ibope aplicada em agosto do ano passado. No levantamento, 23% dos adolescentes entre 13 e 17 anos consideram transtornos mentais como um “momento de tristeza” e não uma doença grave. Silva ainda explica:


“Ter ansiedade é normal, é fator de proteção, mas não inabilita as pessoas. Na doença depressiva e na doença ansiosa, as pessoas perdem a capacidade produtiva”.

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